Iasmin junto à janela, segurando flores claras
Carta nº 001

Reflexões

Sobre a feminilidade e a arte de existir sem endurecer

E, no meio de tantas referências, construir um gosto próprio talvez seja uma forma silenciosa de coragem.

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Escrever sobre feminilidade não é fácil. Eu poderia começar falando de vestidos, perfumes, postura, boas maneiras ou de todas as coisas que costumamos associar à ideia de ser feminina. E eu estaria mentindo se dissesse que não gosto disso, gosto, e muito. Mas, quanto mais penso sobre o assunto, mais percebo que a feminilidade que admiro começa muito antes da aparência. Ela começa na identidade.

Talvez eu pense tanto nisso porque estou prestes a fazer 18 anos. Não porque alguma transformação extraordinária aconteça da noite para o dia, mas porque existe algo curioso em perceber que estamos entrando numa fase em que começamos a escolher, com mais consciência, quem queremos ser.

Esses dias li um artigo sobre como conteúdos ligados à aparência nas redes sociais influenciam mulheres jovens. Uma das coisas que mais me marcou foi perceber o quanto a comparação participa desse processo: quando somos expostas repetidamente aos mesmos ideais de beleza, nossa própria percepção pode começar a mudar. E eu fiquei pensando em como isso ultrapassa o espelho.

Iasmin observando uma pintura de flores no museu
No museu

Todos os dias existe uma nova versão da mulher que deveríamos ser. Um novo rosto, um novo corpo, uma nova tendência, uma nova personalidade para admirar. E, no meio de tantas referências, construir um gosto próprio talvez seja uma forma silenciosa de coragem.

Gostar de algo mesmo quando já não está na moda. Não mudar de opinião apenas para ser aceita. Saber dizer não. Escolher com cuidado quem pode entrar na sua vida. Ter princípios que continuam existindo mesmo quando ninguém está olhando.

Para mim, é aí que a feminilidade começa a ficar interessante. Não na tentativa de corresponder perfeitamente a uma imagem de mulher, mas na construção paciente de uma identidade.

E eu não digo isso como alguém que já descobriu quem é. Muito pelo contrário. Ainda mudo de ideia, ainda sou influenciada, ainda descubro que algumas coisas não combinavam tanto comigo quanto eu imaginava.

Mas existe uma parte de mim que eu quero proteger enquanto cresço. Todos os dias eu oro pedindo a Deus que coloque bondade no meu coração. Peço gentileza, não aquela que existe apenas para parecermos educadas, mas uma que faça alguém se sentir melhor depois de passar por nós. Peço também que exista em mim alguma coisa que a estética nunca conseguiria produzir. Um brilho que não venha de mim. Que, na maneira como trato alguém, nas palavras que escolho, na forma como conduzo a minha vida e até nas decisões que ninguém vê, exista algum vestígio de Deus.

Porque a aparência pode ser uma das primeiras coisas que percebemos em alguém, mas raramente é o que nos faz amar essa pessoa por muitos anos.

Iasmin escrevendo em um caderno
Entre páginas

Eu quero continuar gostando de coisas bonitas. Quero continuar admirando arte, flores, música, roupas, detalhes, tudo aquilo que torna a vida mais bonita aos meus olhos. Mas quero que isso seja expressão de quem eu sou, nunca substituto.

Quero descobrir o que acho bonito antes de perguntar ao mundo se ele concorda. Quero ter princípios fortes sem perder a ternura. Quero aprender sem ter vergonha de mudar, mas também saber permanecer quando alguma coisa for verdadeira.

E talvez, hoje, essa seja a definição de feminilidade que mais faz sentido para mim: não uma lista de coisas que uma mulher deve ser, mas a construção cuidadosa da mulher que escolhemos nos tornar.

Com amor, Iasmin